100 anos depois, uma nova luta contra a quebra de Xangô

100 anos depois, uma nova luta contra a quebra de Xangô
 Fim de festa na praia da Pajuçara, em Maceió.

 
 
Há 100 anos atrás aconteceu em Alagoas um episódio que ficou conhecido como “O Quebra de Xangô”. Foi um ato de violência empreendido por uma milícia que se denominava Liga dos Republicanos Combatentes, formada por veteranos de guerra e políticos, que invadiram e depredaram os principais terreiros de candomblé de Maceió. Eles destruiram imagens, queimaram as casas de culto, espancaram e mataram os pais de santo. A onda violenta também espalhou-se para o interior do Estado. A principal motivação para esse ato extremo de intolerância religiosa foi política. A Liga fazia oposição ao então governador do Estado, Euclides Malta, e o relacionava com o candomblé. Diziam que Malta se mantinha no poder à custa das “bruxarias” de sua protetora, a mãe de santo Tia Marcelina – que teria sido mortalmente ferida no Quebra.

Depois do evento criminoso, houve uma fuga dos pais de santo para outros estados, como Bahia, Pernambuco e Sergipe. Durante décadas, o culto afro praticamente sumiu das vistas da população em Alagoas e, até hoje, um dos reflexos do Quebra de Xangô é o preconceito às religiões de matriz africana no Estado.

Em 2012, talvez por conta de um resquício desse preconceito, um dos mais tradicionais eventos do candomblé e da cultura popular em Alagoas, a festa de Iemanjá, que ocorre todo dia 8 de dezembro, quase não se realiza no seu principal palco – a orla das praias de Ponta Verde e Pajuçara, em Maceió. Um decreto municipal quis limitar em tempo e espaço as festividades. Uma das alegações é que causariam incômodo aos moradores desses bairros da orla por conta de barulho(?). É de se estranhar, por que, somando-se todas as charangas de todos os terreiros que prestam sua homenagem a Iemanjá, seu batuque produziu infinitamente menos barulho que show gospel(!) que a prefeitura patrocinou para comemorar o aniversário da cidade. Era de se esperar menos preconceito e mais laicidade do poder público municipal.

O povo de santo de Maceió protestou e recebeu na Justiça a garantia de manter as festividades e evitar, 100 anos depois, mais uma quebra – dessa vez, por enquanto, apenas de uma tradição.
 

VEJA A GALERIA DE FOTOS DA FESTA DE IEMANJÁ
 


 

30 Comentários

  1. Viva o povo de santo! Parabéns, Léo! Belas imagens. Bj

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    • Obrigado, Bleine!
      Beijão

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    • Obrigado, Lula.
      Abraços

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  2. é bonitão
    é triste mas a intolerância é o que predomina na relação com os povos de santo ou outras manifestações fora do mundinho judaico-cristão.

    você com seu olhar sempre atento ao que estar muito além das futilidades cotidianas.

    parabéns pelos maravilhosos registros e pelo olhar afinado

    odociaba, Yemanjá. Odoiá.

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    • Obrigado, companheiro
      Eu e você estaremos sempre por aí para testemunhar e registrar esses desacertos.
      Um grande abraço

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  3. Que esplendor esta imagem do crepúsculo. Um clima de guerra, de terra arrasada dado pela prosaica presença do sargaço e dos adereços das oferendas que você explorou com maestria. A Mãe de Santo parece ser a emissária da paz. As outras imagens feu@@@i@cham o trabalho de olho no detalhe, o pormenor que importa, que emociona. Grande e respeitoso olhar.Meu olhar completa o seu, pois foi feito à noite, durante a festa na praça de eventos. Vou postar no Facebook.

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    • Valeu, mais uma vez, Mestre Vaz.
      Você tem que colocar tuas fotos num lugar que não fiquem perdidos na nuvem, como um blog. É uma missão pra já.

      Abraços

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  4. Parabéns, Léo, por mais ese trabalho.

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    • Obrigado, Luis Carlos.
      Grande abraço

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  5. QUE LINDAS !!!! PARABÉNS

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    • Obrigado, minha querida sogra-de-santo.
      Beijos

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  6. Amei o texto e as fotos estão maravilhosas. Um olhar sensível sobre o tema. Perfeito.

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    • Obrigado Aline.
      Beijos

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  7. Que privilégio poder registrar o instante deste encontro tão intenso, dramático e feliz da criatura com sua divindade, esta, que apesar de invisível para nós, pobres mortais, nos premia com seu esplendor, derramando sobre nós tanta luz, tanta força e tanta cor……….

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    • O deuses abençoam os poetas como você, Vaz.

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  8. Mestre Léo,
    sua arte é abençoada também por Iemanjá.
    Tu és bom pra cacete !!!
    Abraçãããão umbandístico
    do Canelinha da Sinimbu.

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    • Caro guia espiritual,
      Sua presença aqui é tão vibrante quanto o bater de mil atabaques.

      Grande abraço do seu pupilo

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  9. Você é fera!!!! Vou dar uma olhada nas novidades ainda hoje. Janeiro, possivelmente, vou dar uma passada pela sua terra. Mas ainda vou estar mais por dentro dos detalhes e te informar. Seria um prazer muito grande poder te encontrar e bater um papo. Mas ainda vou confirmar isso e te falo.

    Abraçao!

    Ike

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    • Ike,
      Se você passar por aqui e nós não sairmos juntos pra fotografar, vou ficar putasso.
      Aguardo a convocação.
      Abraço

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  10. Lindas fotos, querido, como sempre. Tu é foda!!! Saudades.

    Vamos marcar um rega bofe de fim de ano??? Falar com aquela franga Lôra. Nem que seja um jantarzin.

    Bjsss,

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    • Vamos mesmo!
      Você já debandou de vez pra Recife? Sentimos sua falta aqui no dia de Iemanja na praia.

      Beijos

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  11. Mandou ver no foi bicha!!!!
    Ta do caralho as fotos!!!
    Abçs,
    Tom Cruz

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    • :)))))))))))
      Valeu, tchona!
      Agora bote as suas fotos direito no blog e deixe de enrustir. Fica postando de uma em uma, que sacanagem

      Abraços

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  12. Maravilha, grande Leo!!!
    Grande abraço!!

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    • Valeu, Mácleim!
      Abração

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  13. É isso, século 21….Ate quando?

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    • Tem gente que ainda não aceitou a Lei Áurea

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  14. Excelente foto. Ilustra a supremacia da fé diante dos incautos, dos preconceituosos, diante do lixo humano. O texto acompanha a qualidade da foto.

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    • Cármen. Você é uma das referências da preservação de nossa cultura e seu comentário e visita ao site é verdadeira honra.
      Grande abraço.

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