Ocupação desafia as leis – inclusive da física

Ocupação desafia as leis – inclusive da física

Em todo o mundo os grandes centros urbanos são significado de oportunidades para qualquer um. É natural que quem precisa de emprego queira estar onde ele é mais abundante. Quem vive do comércio ou presta serviço, tem mais chance de prosperar onde haja mais público. Cidade grande é sinal de progresso e, na mente de muitos, isso tem a ver com bem estar. Mas, entre essa vontade de se estabelecer onde se imagina que a vida possa ser melhor e a realidade, existe uma lei que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar. Vários, então, nem pensar. Essa lei é menos aplicável ainda nos grandes centros urbanos do nosso país.

Há décadas que a falta de aplicação de políticas públicas nas grandes cidades e mais a negligência em se investir em habitação, transportes e saneamento fizeram com que esses centros se convertessem em ambientes refratários a quem quer a eles se agregar. Os booms imobiliários completaram a equação, fazendo com que a lei da física fosse ainda mais seletiva determinando qual tipo de corpo vai ocupar cada lugar. Mesmo assim existem as pessoas que insistem em buscar seu espaço no meio do caos. Um exemplo são os sem-teto que tentam se estabelecer em espaços relegados. A chance de isso dar certo é muito pouca, pois nas grandes cidades lugar vazio ou abandonado não significa ausência de dono.

Um grupo organizado de sem-tetos, expulsos de um terreno que haviam invadido no bairro de Santa Lúcia, em Maceió, passaram a ocupar prédios abandonados no Centro da cidade – os edifícios Ari Pitombo e Palmares que serviam ao INSS e foram esvaziados por que apresentam sérios danos estruturais. Até momento dessa postagem, cerca de 300 famílias vivem nesses prédios improvisadamente em meio à imensa quantidade de lixo, pondo  suas crianças em constante risco de morte, pois os fossos vazios dos elevadores não têm quase nenhuma proteção, há pouca água para ser dividida por todos e o pior: há o perigo do desabamento das construções. O movimento acredita que insistir na permanência ali vai fazer com que eles consigam, através da iniciativa pública, moradias mais dignas. É uma aposta que pode custar muito caro para eles.

Fui ver de perto a situação dessas pessoas e, como sempre, complemento meu testemunho com algumas das imagens que  captei lá.

VEJA A GALERIA DE FOTOS DA OCUPAÇÃO DOS SEM-TETO

 


 

10 Comentários

  1. Gostei da autenticidade e rapidez. Momentos de família belos e cruéis. Fico imaginando como você consegue convencê-los a posar. Respeito é para quem tem. E você mostra que isso é recíproco. Parabéns de verdade.

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    • Pois é, Dedé. Respeito todo mundo merece.
      Obrigado pelo seu comentário.

      Abraço

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  2. Como sempre, um registro primoroso da verdade nua e crua. Não só simples fotos, são fotos que nos fazem pensar, que captam o momento, que têm temperatura, textura, sentimento e transmitem a emoção capturada através o olhar instantâneo que só os artistas como você possuem. Parabéns, mais uma vez.

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    • Obrigado, Adnael.
      Continuo sempre achando que o mérito dessas imagens é dos personagens, que são generosos em nos compartilhar suas histórias, ainda que num brevíssimo momento.

      Abração

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  3. Trabalho lindo, denso, humano, linguagem direta sem perder a veia poética e de interatividade com os fotografados. Flagrante comprometimento com a causa. Vale uma exposição.

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    • Obrigado pelas palavras que sempre incentivam, Vaz.
      A expo seria até uma ideia, mas os personagens estão à vista de todos, todos os dias, não vê quem não quer.

      Abração

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  4. Olá, Leo!!

    Muito bom o seu olhar. Esse povo que, evidentemente, foi levado à essa condição, sem dúvida, precisa de todos os olhares.
    Grande abraço e, no +, MÚSICAEMSUAVIDA!!

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    • Obrigado pela sua vinda aqui, Mácleim.
      Fiquemos atentos sempre à nossa volta.

      Abraço

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  5. Leo, muito bom o seu trabalho. Primoroso registro graças à sua sensibilidade e a visão jornalística. O edifício que possui uns detalhes amarelos na fachada pertencia ao INAMPS, com a extinção desse órgão, passou a ser ocupado pelo Ministério da Saúde que, absorveu todo o pessoal e o patrimônio. Outros órgãos do Governo Federal também ali se aboletaram. Quando foi desocupado, sob alegação de risco de desabamento por falta de manutenção, não se sabe mais quem é o dono, porque ninguém quer assumir o ônus da recuperação. Justa a ocupação pelos sem teto, afinal ele foi construído com o dinheiro do povo. Pena que as condições de segurança e de higiene ameacem a vida dos ocupantes.

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    • Isso mesmo, Zé Alberto.
      Sobre o Ed. do INAMPS, o importante é registrar também que o prédio apresenta problemas de estrutura, que, apesar da idade da construção, não deveriam estar ocorrendo. Isso significa que foi mais uma obra pública construída com nosso dinheiro sem o mínimo critério de qualidade e segurança. Temo pelo pior que possa ocorrer, pois o risco de desabamento é real.

      Abração

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