Quando a maré não está para o pescador

Quando a maré não está para o pescador
Edvaldo mira o mar

 

Na sexta-feira , 19 de junho de 2015, a Prefeitura de Maceió deu por concluída a operação que extinguiu a Vila dos Pescadores, localizada na zona portuária do bairro de Jaraguá. O processo de desocupação vinha se arrastando há muitos anos. Numa fase anterior, no ano de 2007, famílias de moradores da comunidade foram cadastradas e posteriormente transferidas no ano de 2012, para um conjunto habitacional construído no bairro do Trapiche da Barra. Mesmo com essa transferência de moradores, nenhuma desocupação havia sido efetivada e Vila subsistiu. Quem resistiu alega que permanecer no local é questão de sobrevivência. Conversei com alguns dos moradores que ainda estavam dentro dos seus barracos, esperando o momento que o trabalho de demolição chegasse até eles. Um dos primeiros foi João Cavalcante, que se apressou em exibir a sua carteira de pescador profissional. Era morador da Vila há mais de 20 anos. Perguntei se ele não havia sido um dos contemplados com um imóvel no conjunto residencial no Pontal da Barra. Ele admitiu que sim, mas lá estavam morando a sua mulher e filha. Ex-mulher, ele corrigiu. Seu João ainda não sabia pra onde levar os objetos que mantinha no seu barraco e parecia não se dar conta que tinha menos de 24 horas para tomar uma atitude.

Valdevito Santos e Roberto Silva eram mais dois pescadores que pagaram pra ver a execução da ordem de desocupação dada pela Justiça. Se mostraram como provas de que a comunidade não era “um bando de maloqueiros ou traficantes” que muitos que viviam longe dali, segundo eles, acreditavam que fossem. Não tinham conhecimento nenhum do projeto da Prefeitura para a localidade. Também não tinham ideia de para onde ir. A preocupação imediata era arrumar um local para guardar um freezer que usavam para conservar pescados.

Um dos motivos que sempre vinha sendo alegado para a remoção é que a comunidade foi construída em terreno de Marinha. O pescador João insistia em perguntar por que só eles tinham que sair do terreno. “E o clube das lancha dos barão (sic)?”, indagava ele, se referindo ao Clube de Vela e Motor, que ocupa terreno vizinho à antiga Vila.

Na faixa da beira-mar da extinta Vila, há um acúmulo muito grande de lixo. Era também o receptáculo do esgoto da localidade. Esse é uma outra razão que oficialmente motivou a desocupação da área. O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas atestou a insalubridade do local já que o aterro do cais do porto de Maceió funciona como uma barreira para que as marés renovem as águas daquela porção da enseada. O índice de contaminação é muito alto, declaram as autoridades. Estudiosos contradizem esses laudos afirmando que as marés conseguiriam, sim, levar as impurezas embora e que a causa real da contaminação do mar em Jaraguá está mais adiante, o poluído riacho do Salgadinho que deságua no oceano, nas proximidades do porto de Maceió.

Olhando para o cenário do mar castigado, encontrei Edvaldo Santos, na porta de um dos depósitos de pescado que serão, pelo menos por algum tempo, as únicas construções remanescentes da Vila dos Pescadores. Lá ainda ficará armazenada a produção que chega todo dia nos barcos, até que as novas instalações dos depósitos e pontos de venda de pescado que fazem parte do projeto de revitalização do local sejam construídas, segundo a Prefeitura. O olhar de Edvaldo, que me atravessava indo até o horizonte, não dava crédito nem descrédito às promessas, ele somente ele mirava o mar, a única coisa que ele tem absoluta certeza que vai estar lá amanhã.

Veja na galeria de fotos com link abaixo, os últimos momentos dos personagens na Vila dos Pescadores de Jaraguá antes da sua completa remoção.

VEJA A GALERIA DE FOTOS DA VILA DOS PESCADORES DE JARAGUÁ
 


 
 

1 Comentário

  1. Parabéns, Prefeitura de Maceió.

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