Zica na decolagem

Zica na decolagem

Desde que os americanos criaram o Canal do Panamá, ainda não tinha surgido uma grande idéia de se como tirar proveito do trânsito de transportes ou pessoas por aquele país. Não adiantaria muito insistir em atrair quem pudesse se interessar em suas belezas naturais, pois o mar do Caribe é mais inspirado nos países vizinhos e a sua zona franca comercial ainda não despontou também como atrativo. Assim, agora se vende a idéia que o Panamá é um Hub aéreo das Américas. Pelo modesto, porém eficiente, aeroporto internacional da Cidade do Panamá, distribuem-se vôos que agora fazem ligação entre as Américas do Sul, Central e do Norte. E quem desponta tirando vantagem disso é a ainda pequena, também eficiente e ágil Copa Airlines. Assim me foram vendidas as características da empresa aérea que ia me levar até Cuba, já que puseram fora de cogitação a chance de embarcamos num vôo direto até Havana pela estatal Cubana de Aviación.

Todo esse lero com o qual eu iniciei essa história da nossa aventura em Cuba serve só pra demonstrar que nem todo planejamento e eficiência pode resistir a um simples fato prosaico, mas que pode ter desdobramentos imprevisíveis. Como pode um submarino, operado por tripulantes árabes no Golfo Persa, sem disparar nenhuma arma de longo alcance, atrasar um vôo de uma companhia panamenha saindo do aeroporto de Guarulhos em São Paulo na direção do Panamá? Não vamos pela lógica – a resposta é tudo! Diz a lenda que homens confinados dias, ou meses em submarinos tem direito a pouco ou quase nenhum conforto, aí inclui-se o asseio pessoal.

12h55min. Avião lotado, teoricamente todos a bordo, hora exata marcada para a saída. 13h45, avião ainda no solo. As portas ainda estão abertas. Início de tumulto na últimas fileiras, justo onde eu me encontrava. Mais muvuca nas poltronas lá na frente. Os tripulantes não permitem que o finger seja recolhido, por que até aquele momento eles não têm a certeza se será ou não permitido o embarque de alguns passageiros. Esses coitados discriminados eram justamente também tripulantes, mas daquele submarino que estava vagando há alguns dias muito longe dalí. Eu, sinceramente, acredito que eles tenham tomado um banho logo que puseram os pés em terra firme, mas o futum de semanas não resistiria a uma mera chuveirada. Ninguém aceitava a companhia dos infelizes e já se ensaiava um movimento de expulsão dos marinheiros do avião. A essa altura, os comissários de bordo já tinham gasto vários daqueles frasquinhos de spray desodorizantes jogando os jatos nas saídas de ar do todo o corredor. Talvez temendo por uma represália desproporcional ao fato, já que o radicalismo islâmico não tem mesmo medidas, e vendo rapidamente o estoque de sprays acabar, a chefe de cabine tomou uma atitude: a despeito de sua fabulosa suvaqueira, os passageiros em questão vão mesmo embarcar no vôo, nem que seja pra sentar todos nas poltronas reservadas para a tripulação. Não senti muita convicção da panamenha quando ela falou essas últimas palavras, mas assim ficou decretado. Pra colaborar e tentar amenizar a situação da atmosfera no interior da aeronave, o comandante teve a idéia que eu achei a pior de todas: abriu as entradas para que o ar deixasse de circular apenas dentro da cabine, mas o que entrou dentro do avião foi o escapamento das turbinas, que naquele momento, já fazia quase 1 hora que espalhava o fumacê na área.

Pra quem, durante alguns anos da vida, estava quase todo dia dentro de um busão lotado que fazia a interminável linha Cidade Universitária-Ponta Verde, em pleno calor do meio-dia de Maceió, confesso que achei exagerada e muito mauricinha a reação das pessoas naquele vôo. Mas pensei também que, nem com todo o LSD que os Beatles poderiam ter consumido para criar o Submarino Amarelo, eles poderiam imaginar uma situação como aquela.